Maria Julia, do MAM, fala sobre desafios os impactos causados pela lama da Samarco/BHP/Vale

Maria Julia, do MAM, Movimento pela Soberania Popular pela Mineração conversa com a entrevista foi feita pela pesquisadora do Ibase Marianna Brito, do projeto “Mineração em debate: consolidando um campo pós-extrativista no Brasil”, durante a Caravana Territorial da Bacia do Rio Doce, que ocorreu em abril de 2016.

Ibase: Como essa rota foi pensada?
Maria Julia: Estamos na região de dois municípios vizinhos a Mariana: Outro Preto e Catas Altas, que também tem uma mina em atividade da Vale. Essa mina, a São Luís, ela está ligada ao complexo Mariana, que gera os rejeitos para as barragens que romperam há 5 meses. Nós consideramos importante conhecer esta rota, antes de conhecer os impactos que ela lama causou, para poder entender os complexos mineradores, que são os maiores de Minas Gerais e bem significativos para a produção da Vale. É importante conhecer o tamanho de tudo isso para entender o tamanho do fluxo de rejeitos produzido e saber o porquê do tamanho do estrago causado pelo rompimento das barragens em Mariana.

Ibase: Qual a importância desta rota?
Maria Julia: Nós vamos fazer uma rota que é a rota do epicentro do desastre, a gente quer entender a região em que estamos. Queremos entender essa região mineradora que não começa com a atuação da Vale, começa há 3 séculos atrás. Depois, queremos conhecer os locais mais atingidos pelo rompimento da barragem de Mariana: Bento Rodrigues, que deixou de existir, Paracatu de Baixo, outro distrito de Mariana que praticamente sumiu, e Pedras, outro local bastante atingido. Queremos entender o que foi essa enxurrada de lama. Além disso, queremos conhecer e mostrar o que a região constrói e apresenta como alternativas à mineração, para que ela não seja a atividade única da região. Por último, seguindo a rota da lama, nós vamos para Barra Longa, que foi um município muito atingido.

Em Barra Longa, a lama passou 14h depois do rompimento, mas como a população não recebeu nenhum tipo de aviso, foi tudo perdido. Lá, vamos conhecer a realidade da área urbana, que a Samarco trata de modo diferenciado, com muito mais prontidão, e a área rural, principalmente a região do roçado e de criação de gado, onde a relação com a Samarco já é mais difícil. Antes de chegar na foz do Rio Doce, a gente vai passar pela barragem do Candonga, que é uma hidrelétrica construída há quase vinte anos, gerida pela CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, uma empresa de capital misto (estatal e privado) e pela Vale. Neste dia, queremos trabalhar as questões que ligam mineração e energia. A mineração precisa de muita energia na sua produção e as empresas estão sempre juntas nos projetos que ligam os dois setores. Queremos ainda conversar com os agricultores, saber de suas vidas após terem suas terras atingidas, e conversar sobre o espaço Família Agrícola, que fazia um trabalho com agroecologia nessas regiões, e que foi atingido pela lama da Samarco.

Ibase: Como o MAM vê o andamento das conversas com a Samarco e as experiências de resistência nos territórios?
Maria Julia: A gente percebe que existem várias resistências acontecendo, mas que não estão plenamente articuladas. A Caravana, certamente, vai contribuir para que essas iniciativas se articulem ainda mais. Nas cidades chave, as que foram mais atingidas, e também as de médio porte que foram atingidasde algum modo, como Colatina, Linhares e Governador Valadares, o que a gente percebe é uma insuficiência do estado em mediar todos os conflitos existentes. A presença principal em todas as cidades atingidas pela lama é da Samarco. É ela quem está determinando, em Colatina, por exemplo, qual pescador irá receber auxílio e qual não irá. A Samarco está classificando, de acordo com os critérios deles, quem foi mais ou menos atingido pela lama. A Samarco está em todos os lugares, inclusive entregando as doações enviadas por pessoas de todo o Brasil. Essa distribuição deveria ser feita pela Prefeitura de Mariana.

No meio disso tudo acontece o acordo do Governo Federal com o Governo de Minas e o do Espirito Santo, um acordo muito pouco transparente, com nenhuma participação dos atingidos e nenhuma participação das organizações sociais que acompanham os atingidos. Esse acordo ocorre com a desculpa de que a judicialização das ações atrasa o atendimento aos atingidos o que, na verdade, esconde que os atingidos não estão tendo oportunidade de falar, de escolher se querem fazer um acordo agora e em quais termos. A fundação que será criada depois deste acordo será uma fundação movida pelas empresas, em que o estado é fiscalizador e em que as organizações ligadas aos atingidos entram apenas como um conselho constitutivo, não deliberativo, que tem poder de tomar decisões. Isso tudo é muito complicado por que a empresa, em princípio, é ré neste processo. Existe um processo criminal que a Polícia Civil de Minas Gerais apresentou. Existe um diagnóstico, o qual a própria Caravana acredita que pode contribuir para a sua construção, que pretende mostrar os reais impactos do rompimento da barragem de Mariana para as bacias. Como que em 5 meses, com a confirmação de que a lama ainda está descendo, como pensar que o valor acordado entre os governos é o suficiente? Como saber disso sem ter um diagnóstico do tamanho do estrago causado a longo e longuíssimo prazo? Nós acreditamos que a participação do estado neste processo não é adequada em nenhum nível, nem municipal, nem estadual, nem federal.

Ibase: O MAM acredita que outro modelo de mineração é possível?
Maria Julia: Sim, é possível. Mas isso ainda está em construção. A ideia de que a extração e a exploração de minério é inesgotável, aquela ideia velha de desenvolvimento, e  de que isso é progresso, permeia as ideias dos nossos gestores. Um outro modelo de exploração passaria, a principio, em pensar qual o ritmo de extração que essas minas deveriam ter. Por que as minas desta região precisam aumentar a produção em quase 40% em um ano e isso gerar quase 40% de rejeitos para a barragem de Fundão? Obviamente, a gente viu que as paredes não sustentaram tanto peso. Então, outro modelo passaria por ter um entendimento do ritmo de exploração das nossas jazidas que são, claro, finitas.

A segunda grande questão é a dimensão de que nem toda área deveria ser minerada. Aqui, nós temos áreas com desenvolvimento de agricultura, agroecologia, e elas não deveriam ser mineradas. Assim como não deveriam ter atividade mineradora regiões de balneário de águas, como em Catas Altas. Então, repensar a mineração passa por repensar o ritmo e o modelo de exploração e pensar que nem toda área é passível de receber atividade mineradora, mesmo que haja minerais no solo.

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